A inquietude da Alma

O que temos em comum com Salomão e Agostinho?

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Santo Agostinho escrevendo

Tu nos despertaste para o prazer de te louvar, pois nos criaste para ti, e o nosso coração não tem sossego enquanto não repousar em ti.1
-Agostinho de Hipona

Agostinho, um homem inquieto

Agostinho de Hipona (354–430) é uma das figuras centrais na história intelectual do cristianismo. Sendo um filósofo e teólogo cristão seu trabalho exerceu grande influência na teologia e pensamento da Igreja Católica Romana, e posteriormente sobre os pensadores e teólogos da Reforma Protestante.

Ao longo de sua vida, na busca por sentido e propósito, passou por uma transformação intelectual profunda. Inicialmente foi atraído pelo maniqueísmo—uma filosofia religiosa que postulava duas forças eternas e iguais, o bem e o mal, em luta perpétua—Agostinho encontrou nessa seita respostas que o cristianismo não lhe parecia oferecer. Porém após se desiludir com o maniqueísmo e passar por um período cético, ele recebeu influência da filosofia neoplatônica em Milão. Posteriormente foi profundamente impactado pela pregação alegórica do bispo Ambrósio, levando-o a uma conversão dramática à fé cristã, conforme podemos acompanhar em sua obra clássica Confissões.2

A busca do coração

Quando olhamos para a história e vida de Santo Agostinho e sua enorme influência sobre Teologia Cristã, podemos por um minuto nos esquecer de que o Agostinho que escreveu Confissões, nem sempre foi aquele homem. Na verdade a cada página dessa obra monumental ficamos ao mesmo tempo surpresos, espantados e impactados ao acompanhar a busca por sentido e propósito narradas por Agostinho.

Quando lemos a célebre frase eternizada por Confissões que está no início desse texto podemos comprrender que em algum momento Agostinho de fato encontrou o que procurava. Talvez não da maneira como ele esperava, mas com certeza de uma forma plena e verdadeira.

De alguma maneira, todos os seres humanos estão em uma busca semelhante a de Agostinho. As pessoas buscam respostas para perguntas como: Por que nascemos? Por que vivemos? Qual o propósito da vida? Essas perguntas revelam que de alguma forma, em algum lugar dentro de nós há um anseio que aparentemente não pode ser saciado pelas as paixões humanas.

O livro de Eclesiastes, escrito pelo sábio Rei Salomão, nos dá pistas de que a busca dos homens por satisfação em coisas como o sexo, riquezas e poder na verdade não passam de vaidade ou inutilidade como traduzido pela NVI. A palavra vaidade no livro de Eclesiastes vem da palavra hebraica הֶ֫בֶל hěʹ·ḇěl - hevel - que significa literalmente vapor, sopro. Logo, quando Salomão diz que tudo é vaidade, o que ele quer dizer é que tudo é literalmente vapor, ou seja, tudo passa e por isso é inútil.

No primeiro momento, pode ser frustrante lermos o livro de Eclesiastes e vermos Salomão dizer versículo após versículo, capítulo após capítulo que nada tem sentido, que tudo é inútil, que tudo é vapor. Ele fala sobre o prazer, o trabalho, a sabedoria a conquista e parece que nada, absolutamente nada faz sentido e de fato ele está correto.

Nada faz sentido, se buscamos o sentido das coisas no lugar errado. Esse era o problema de Salomão, o problema de Agostinho e com certeza também é o nosso problema. O problema não é a busca por sentido em si mesmo, mas sim onde estamos buscando.

Encontrando sentido

Em Eclesiastes 3, depois do famoso texto sobre o tempo determinado para todas as coisas lemos:

O que ganha o trabalhador com todo o seu esforço? Tenho visto o fardo que Deus impôs aos homens. Ele fez tudo apropriado ao seu tempo. Também pôs no coração do homem o anseio pela eternidade; mesmo assim ele não consegue compreender inteiramente o que Deus fez. Descobri que não há nada melhor para o homem do que ser feliz e praticar o bem enquanto vive. Descobri também que poder comer, beber e ser recompensado pelo seu trabalho é um presente de Deus. Sei que tudo o que Deus faz permanecerá para sempre; a isso nada se pode acrescentar, e disso nada se pode tirar. Deus assim faz para que os homens o temam.

Eclesiastes 3:9–14

Para nos ajudar entender esse texto, vejamos o que Walter Kaiser diz a respeito desse texto: "Essa busca é um desejo bem enraizado, um impulso compulsivo, porque as pessoas foram criadas à imagem de Deus e foram feitas para apreciar a beleza da criação (num nível estético); conhecer o caráter, a composição e o significado do mundo (num nível acadêmico e filosófico); e discernir seu propósito e destino (num nível teológico)."3

Se a eternidade está no centro do anseio humano, como podemos esperar que as coisas efêmeras dessa vida poderão preencher nossos corações? Claro que ao longo da vida vamos sim nos alegrar, trabalhar e em alguma medida sermos felizes e tudo isso como diz o sábio é um presente de Deus para nós. Por outro lado, concordo com Heber Campos Jr, quando ele afirma que a vida terrena é desligada de uma realidade eterna, logo é também insatisfatória. 4 É por isso que seguimos em busca de sentido.

O ponto em questão aqui é que nós criamos uma dicotomia, uma maneira de enxergar a realidade em que separamos o material e o espiritual, o secular e o profano e acreditamos que dessa maneira conseguiremos satisfazer em um dia as necessidades materiais e em outro as necessidades espirituais. Não é assim que funciona. Porém no estado atual da criação, precisamos salientar que o eterno não é uma mera continuidade do agora, mas passa por uma transformação radical. Essa transformação na verdade já começou com Jesus Cristo nos dando uma nova vida, veja bem, uma nova vida que começa aqui e seguirá por toda a eternidade.

Veja, Salomão só encontra algum sentido, se é que podemos dizer assim, quando ele tira os seus olhos da perspectiva horizontal e passa encarar as coisas a partir de uma perspectiva vertical. Quando ele entende que as coisas dessa terra não poderiam satisfazer os anseios do seu coração.

Com Agostinho não foi diferente. Depois de "peregrinar" pelos campos da filosofia, retórica, maniqueísmo e tudo o mais que estava ao seu alcance na busca por sentido ele tem uma conversão dramática, narrada em seu livro Confissões. É irônico que o que ele buscava estava tão perto dele desde sempre, afinal sua mãe era cristã. Às vezes é necessário viver as nossas próprias experiências para chegarmos no mesmo lugar de onde saímos.

E quanto a nós? Quantas vezes não nos pegamos com nossas almas inquietas? Entendo que onde está um coração humano, ali também existe uma alma inquieta em busca de sentido e propósito. Não estou falando de ter todas as respostas, estou falando sobre ter clareza e paz em meio as incertezas da vida ao ponto de conseguirmos desfrutar dos presentes que Deus nos proporciona mesmo aqui nessa limitada vida terrena.

O Catecismo de Westminster traz em sua primeira pergunta, a seguinte questão:

Pergunta 1. Qual é o fim supremo e principal do homem?

Resposta: O fim supremo e principal do homem é glorificar a Deus e alegrar-se nele para sempre.5

Salomão e Santo Agostinho entenderam isso, assim como Pedro, Paulo e outros nomes da história cristã: Nosso propósito maior é a Glória de Deus e a nossa alegria eterna nele. Isso também explica o porquê é tão difícil chegarmos a esse ponto sem nos debatermos com essas afirmações. Isso está em conflito direto com a natureza caída do ser humano e exige uma total sujeição.

Por incrível que pareça a inquietude de nossa alma só terá fim quando pudermos de fato descansar. Não em nossas conquistas ou em nossos méritos, mas em Deus o único Senhor e Criador de todas as coisas.

Soli Deo Glória.


Referências

  1. AGOSTINHO. Confissões. Tradução: Almiro Pisetta. 1a edição ed. São Paulo: Mundocristão, 2017. p. 13 ↩︎
  2. DE MATOS, A. S. Prefácio. In: Confissões. Tradução: Almiro Pisetta. 1a edição ed. São Paulo: Mundocristão, 2017. p. 8. ↩︎
  3. KAISER, W. C., Jr. Eclesiastes. Tradução: Paulo Sérgio Gomes. 1a edição ed. São Paulo, SP: Editora Cultura Cristã, 2015. p. 85 ↩︎
  4. CAMPOS, H., Jr. Amando a Deus no Mundo: Por uma Cosmovisão Reformada. Primeira Edição ed. São José dos Campos, SP: Editora FIEL, 2019. p. 571–572 ↩︎
  5. ASSEMBLEIA DE WESTMINSTER. Símbolos de Fé: Confissão de Fé, Catecismo Maior e Breve Catecismo. 2a edição ed. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2014. p. 111 ↩︎